Meu escritor favorito

Meu escritor favorito, que na verdade nem sei como conheci e nem conheço ninguém que também conheça, tem escrito muito pouco.

Até aí tudo bem, não vivo das suas crônicas e pra ser bem sincera ele sempre escreve coisas que não batem com como eu enxergo a vida.

Também escreve de um jeito estranhamente autêntico que não tem nada a ver comigo. Como se as palavras não tivessem que ter encadeamento, coesão e norte, deixa fluir à própria sorte os caminhos do pensamento.

Isso é tudo o que não sou. Sou regrada, orgulhosa, metódica, até mesquinha, mas não sou solta. Ou sem norte. Sei exatamente onde quero chegar com o que escrevo.

Talvez aí que esteja o problema da minha escrita. Ou de mim. Ou do mundo. Talvez se o mundo fosse mais como as suas crônicas as coisas fossem mais verdadeiras.

Não digo mais felizes, nunca mais felizes, porque a felicidade do jeito que a vemos hoje tem um parentesco gigante com a mentira. Mas digo, verdadeiras mesmo.

Dizendo a verdade eu tenho é inveja. Inveja de como ele fala do grotesco e do sujo sem se importar. Inveja de poder mostrar por mostrar. Falar por falar e não pra chegar a algum lugar.

E talvez seja por isso que eu esteja tão triste que ele escreva tão pouco. Porque cada vez que leio, sinto que posso ser isso tudo de errado que sou. Sinto que a minha escrita não tem que estar a serviço de mais ninguém a não ser de mim. Sinto que posso escrever o que sinto. E só.

A caixa

Tem tanto sentimento aqui guardado que se fosse eu quem tá aí do outro lado nem cogitaria em tentar abrir.

Mas como a caixa de Pandora, além da hora, já se vê que a tampa lacrada momento ou outro não vai resistir.

E aquele infeliz o suficiente que, ignorante ou inconsequente, se botar a conseguir, terá que lidar com o que nem eu, aqui de dentro, jamais bem sucedi.

Matematicamente falando

Matematicamente falando seriam três. Três tentativas se eu tivesse realmente tentado. Uma pra te convencer a chegar, outra pra te fazer ficar e uma última pra não te deixar partir. Mas na verdade foram seis. Seis quartos de meias palavras que você disse e que me convenceram que foi que bom que na verdade foram só dez. Dez vezes que pensei em te chamar, pra depois esquecer. Pra 100pre.

Envelhecer

A cada minuto tudo passa

Pagamos à morte com tempo de vida

E o que fica?

Essa é a grande questão.

Passamos tempo, tanto tempo, todo o tempo

E ainda assim parece que não o temos (tínhamos)

E quando perto do fim já aceitamos que acabou

Agora um livro acaba antes da última pagina?

E um poema antes da última estrofe?

Recuso-me a acreditar que sim.

A grande verdade

O amor é feio, essa é a grande verdade.

Aqueles que esperam dele flores e cores e lapsos infinitos de felicidade são nada mais que supérfluos.

É lindo fingir que o amor é belo e colorido e coerente. Mas escondido no fundo do inconsciente é sabido por todos que o amor é, na verdade, feio.

A paixão sim, essa é linda, choques de endorfinas, comportamentos energéticos, olhares (ah, os olhares), inimagináveis sensações e todas (todas!) as emoções do mundo.

Mas amar é suportar o feio. É descobrir a dor e aquilo que é intragável do outro e aceita-la. É ter bravura o suficiente para não matar o dragão que guarda a princesa, mas descobrir que, no fim, ele é a própria princesa.

Amar é para os fortes de alma que bancam as incertezas e as feiúras e gritam aos quatro ventos que vão ficar. Amor é para os sensíveis que sabem ver além de si. Amor é para poucos e é uma pena que a maioria se dê conta no fim das contas: “eu não vivi”.

Apêndice

Aquilo que quase ninguém notou e que, talvez por não saber direito onde colocar no texto original, ou por ser tão detalhe que o autor só lembrara de acrescentar no final, o apêndice acaba passando despercebido.

Esquecido. Pelo menos até que algum leitor de apêndice o encontre. Experiência ímpar essa que esses leitores têm, os leitores de apêndice.

E não só dos livros me restrinjo a analisar. Leitores dos apêndices da vida, aqueles que leem nas entrelinhas e prestam atenção naquilo que ninguém mais vê. Ah, esses sim, entenderam tudo.

Sentimentalize-se

Sentimentalize-se pois de frio já basta o inverno

Abra-se e esconda-se até, se necessário, mas não sigas assim como se nada a tocasse

Flor que habita em ti sei que quer sair, deixe-a

A barreira que construíste, te digo, tem fendas e vejo por entre elas: és linda.

Aquilo que escondes é o que mais quero conhecer, não te conheço se não o que há de mais guardado em ti. Mostra-me.

Não há graça em te ver só pela superfície que aos outros contenta. Não quero aparências e perfeições de ti.

Quero o grotesco e o feio de se olhar pois também são tua parte e tornarei-os palatáveis aos olhos meus.

Se deixares, quero o teu todas as partes.

Pressa

A pressa passa como um trem descarrilhado quase caindo do penhasco

A pressa não caminha, corre, quase voa se você deixar

Filha da produtividade e parente da ansiedade, a pressa estressa

Resume o tempo ao relógio, que nunca passa devagar

Se a pressa chega onde quer chegar? Sim ela chega.

Mas talvez perca no caminho lugares melhores para se estar.

Seria simples se fosse Verdade

Existe uma história, muito difundida, que conta sobre as originárias personagens que permeiam a vida de todo o ser desde que ele aprende a esconder o que lhe convém: a Mentira e a Verdade.

Conta-se que elas até conviviam bem, com suas diferenças, mas que a Mentira levava consigo uma inveja, ainda que bem escondida, da Verdade.

Um dia, a Mentira convidou a verdade para tomar um banho de mar, e ela, animada, aceitou o convite. Despiram-se então na beira do mar e entraram na água.

Entretanto, logo após a Verdade dar seu primeiro mergulho, a Mentira saiu correndo do mar, roubou as roupas da Verdade, vestiu-se e foi correndo para o vilarejo. A Verdade, se dando conta do ocorrido, decidiu que não se vestiria com as roupas da Mentira, como não era ela, e foi para a cidade, nua, a procura da Mentira para recuperar suas roupas.

É sabido que até hoje a Mentira, travestida de Verdade, continua a ser recebida com grandes festas nas casas das pessoas no vilarejo; e que a Verdade segue vagueando pelas ruas, renegada por aqueles que não conseguem encara-la, nua, como é.

Acabada a história, concedo-me aqui a liberdade de falar o que todos já escutam, mas que muitos, talvez não tenham, de fato, ouvido atentamente: “a verdade dói”.

Tão simples sentença que carrega uma complexidade de significados. A verdade, no que tange a nossa discussão, não se trata daquelas afirmações banais do dia-a-dia, mas sim dos dilemas morais em que nos metemos e que, mesmo afirmando certezas externamente, guardamos sempre aquela dúvida de “será que estamos aceitando a mentira travestida de verdade em nossas casas?”

Acontece que é muito mais simples receber a mentira: ela é mais palatável. Não haverá ninguém na sua casa desconfortável por vê-la nua, ela não lhe cobrará que tome atitudes a respeito de sua visita, não modificará ou questionará um aspecto da sua maneira de viver, pois, pra ela, tudo está em perfeita ordem. É, talvez seja mais simples recebê-la, mesmo. Talvez você tenha razão e eu esteja me equivocando, afinal “pode ser que tudo realmente seja mais simples”.

Pode ser que quem tenha saído daquele lago tenha sido a Mentira e não a Verdade, pode ser que aqueles que dizem o contrário estejam apenas delirando. Pode ser também que os que insistem em apontar as mazelas do mundo e se dizem ciência, fazendo apontamentos catastróficos, sejam apenas sensacionalistas. Pode ser que os movimentos em prol das minorias sejam exagerados e não mais necessários: todos já são iguais mesmo. Pode ser que não estejamos vivendo uma pandemia mundial e que não tenhamos que tomar nenhuma atitude em relação a nada disso.

Tudo isso pode ser até que não é. Quando aceitamos a mentira em nossas casas tudo fica tão simples e belo que parece até uma miragem. A questão é que isso é exatamente o que essa simplicidade é: miragem (mentira). E assim que ela vai embora da sua casa de barriga cheia e depois de tê-lo enchido o ego com mentiras simples e reconfortantes, lhe deixa a mercê do pior mal: o da ignorância. A Mentira sabe os perigos que rondam sua casa e sua família, mas escolhe não dizer. E antes de ir ainda dá sua última cartada para garantir que não escapará da ignorância difamando a única que podia salvar-te de ti mesmo: a Verdade.

Por isso, quando tudo tiver muito simples e belo: desconfie! Não acolha a Mentira em sua casa sem antes checar muito bem. E aqui, não pense que digo que deves desconfiar de tudo que é bom e acalma o coração, mas que atente o dobro caso perceba que a Verdade pode estar vagueando na sua rua, enquanto a Mentira lhe engana comendo o quente prato que lhe ofereces.

E, se descobre que foi enganado: coloque-a para fora, não hesite ou deixe para lá! Não sabes as consequências que terás se ouvir todas as baboseiras em que ela te fará acreditar. Nunca é tarde para ser forte o bastante para remover a mentira da sua vida e escolher a verdade, ainda que doa.