Navegar

Navego por um mar

De cores e flores e querubins

Também por um mar frio

De folhas e galhos e anil

Navego por um mar profundo e sereno

Mas também por mares rasos

Que, atrasos, não me detém

Mas mesmo assim navego

E, não nego,

Só sei do mar:

Navegar.

O fardo de ser mulher

Não gosto muito de expor, pelo menos não de forma explícita, vivências pessoais no blog. Geralmente esses textos com minhas experiências particulares ficam bem guardados na útil aba de rascunhos, apenas para fins terapêuticos.

Mas não posso deixar de escrever sobre essa. Esperava algum dia falar isso de uma experiência muito boa que me ocorreu, mas a verdade é que a situação é outra.

Por isso de antemão já aviso que esse não é um texto bonitinho e bem pensado. Na verdade, ele é mais um vômito de sentimentos e emoções ruins. Bem ruins. E peço que te sintas à vontade para parar a leitura quando quiser, se achar pesada demais – minha intenção não é ativar gatilhos em ninguém.

Falo sobre essa noite de domingo (mais um domingo típico: chuva, família e aconchego do lar) em que tudo parecia ter fluido de maneira singelamente normal. Nessa noite, tive um pesadelo.

Talvez, após fazer esse texto, psicólogos me advirtam de que reviver o pesadelo escrevendo-o não tenha sido a melhor ideia. Mas preciso fazê-lo. Pelo meu bem e pelo bem daquelas que também tem esses mesmos pesadelos (ou pior, vivem neles).

Na verdade, nem sei se pesadelo é o melhor jeito de definir o que tive. Talvez uma crise de ansiedade possa preencher melhor os critérios de tudo o que senti durante e depois do sono.

Então vá lá: sonhei que estava saindo da casa de um amigo, em Porto Alegre, indo pegar o ônibus. Fazia tempo que não o via e ficamos conversando até mais tarde delícia de dia. Mas assim que escureceu notei que estava tarde e decidi ir pegar o ônibus mas era tarde demais

Cheguei na parada e não tinha mais ninguém lá (e nenhum lugar aberto que eu pudesse ir). Meu primeiro pensamento foi onde eu esconderia meu celular caso fosse roubada. Nisso, um homem dobrou a esquina. Nenhum movimento além dele.

Resolvi mandar uma mensagem pro meu amigo avisando que seria assaltada e pra ele dar tipo uns 10min e ir lá me buscar como estaria sem celular e sem nada. Mas até aí estava razoavelmente tranquila quanto a isso: em uma cidade violenta como Porto Alegre sempre se espera o dia em que te levarão as coisas.

Mas logo em seguida, dobraram mais quatro homens que se juntaram a ele. E meu coração começou a disparar quando me dei conta de que não era preciso tanta gente para roubar uma mulher com peso relativamente baixo, 1,62 de altura e só uma aula de judô mal sucedida no quesito “habilidades de defesa pessoal”.

Lembrei então da menina estuprada por 33 (TRINTA E TRÊS!!!) homens Rio de Janeiro. Lembrei da mulher estuprada por cinco homens que a tiraram de casa com o marido e a estupraram em um suposto “matadouro” em Minas Gerais. Lembrei da mulher abusada por três homens após passar mal nas ruas da Baixada Fluminense. Lembrei da mulher estuprada em um carro em Porto Alegre, vítima de um estupro gravado e ainda compartilhado nas redes sociais pelo agressor.

Lembrei de incontáveis mulheres que são mais a cada dia que passa, vítimas dessa sociedade machista que nos mata aos poucos e nos faz viver com medo.

Lembrei também das incontáveis vezes que minha mãe e minha avó me disseram para “colocar uma roupa mais longa” e que “não era para dar chance para o estuprador”. Lembrei também das vezes que me disseram que era preferível ficar em casa ao se arriscar na rua. Dos múltiplos avisos para NÃO ANDAR SOZINHA, principalmente à noite, principalmente em Porto Alegre. E lá estava eu, contra todas essas regras; e eles cada vez mais perto. E mais perto. E mais perto.

Me arrependi amargamente de não estar em casa, como minha mãe talvez teria feito, ou minha avó. Também me arrependi de estar com uma roupa mais curta: tinha escolhido o vestido ao invés da calça antes de sair.

E quando eles chegaram tão perto que eu quase não podia mais fingir que talvez só estivessem fazendo um passeio noturno, eu só conseguia sentir pavor. Um medo gigantesco que me paralisava. Com o coração acelerado e um aperto que parecia quase explodir o peito, não conseguia fazer um sequer movimento voluntário. Nem piscava nem nada. Só olhava incessantemente para o chão tentando fingir que não era verdade o que estava iminente. Estava completamente indefesa. E impotente. E apavorada.

Nisso, o cenário mudou.

Estava na minha casa (como tinha suplicado tantas vezes no cenário anterior), deitada na minha cama.

Mas mal deu tempo de me aliviar e pensar em tudo que havia acontecido quando ouvi um barulho no corredor. Eram vozes. Vozes masculinas que estavam tão perto que pareciam estar no meu quarto Estavam no meu quarto? Sim estavam. Uma tão perto que quase conseguia ouvir sua respiração, mas não conseguia distinguir o que falavam. Apenas ouvia risadas. Não quis levantar, achei que podiam decidir ir embora Só erraram o cômodo

Então um deles sentou na minha cama, bem do meu lado. Depois disso bateu na minha nádega com força. O outro riu, vi pelo canto do olho, e se posicionou mais perto. Daí eu entendi o que estava prestes a acontecer. Mas como se eu estava em casa? Não saí e fiz tudo o que falaram! Não conseguia me mexer. Mal conseguia abrir os olhos. Só queria gritar, pensei em correr. Mas estava paralisada. Eles riam. Não sei o que estavam esperando, mas vi que estavam a postos e que agora era minha vez: eu era a vítima.

Meu desespero foi tanto que quando me dei por conta a cena se desfez e eu comecei a gritar enlouquecidamente por minha mãe. As palavras não saiam e eu caí da cama de tanto gritar.

Quando acordei de verdade não tinha conseguido falar nada nem me mexer nesse meio tempo. Levantei, com o coração disparando e uma angústia gigantesca. Nisso, encontrei meu irmão dormindo no quarto dele. Acordei-o e contei o que tinha passado, ele me acalmou e disse que estava tudo bem e que isso não aconteceria mais.

Deixei-me crer nas palavras dele pelo menos por aquela noite. Mas sei que, apesar da vontade dele, isso vai acontecer de novo. Isso tá acontecendo agora, nesse momento com uma (ou várias) de nós. E não, não estou falando do sonho. Falo da realidade de milhares de mulheres estupradas. De milhares de mulheres com medo diariamente. De milhares de mulheres com crises de ansiedade. De milhares de mulheres ESTUPRADAS. De milhares de mulheres mortas. Falo de milhares. Mortas.

Por isso não venha dizer que não há espaço para o feminismo. Que não existe mais machismo e sentenças semelhantes extremamente erradas e nocivas. AINDA ESTAMOS MORRENDO será que não veem?

Bom, eu vejo. E se por hoje esqueço desse pesadelo para poder dormir, amanhã acordo com ele escrito na minha alma e a certeza de que farei tudo ao meu alcance para não permitir que mais nenhuma mulher passe por aquilo que, graças a Deus, para mim, foi “só” um pesadelo.

S(ilênci)ó

Silêncio.

Silêncio.

Silêncio.

Mais fácil se incomodar com o barulho: ele é bem mais identificável.

O incômodo do não-barulho vem com tanta intensidade que desacomoda da maneira mais dolorosa: com o nada.

E se incomodar com o silêncio e com a calmaria é a mais cruel das dores: sinal de que não se sabe (ou não se quer saber) o que perturba.

Primo da solidão (um dos maiores medos de qualquer homem que mesmo que negue sofre com a ideia de se ver só), o silêncio, arrisco dizer, é ainda mais sorrateiro: tem pinta de bem-quisto e de mensageiro de boas-novas, mas na verdade não passa de uma máscara de quem não sabe (se) ouvir.

Se pessoalizado [o silêncio] ele seria soberbo. Com um ar extremamente narcísico e naturalmente quieto, quando evocado para a conversa por algum sujeito super carismático e interessado utilizaria sempre o mecanismo de intelectualização para explicar sua falta de palavras: não me abro com qualquer um.

Ninguém o questionaria. Inclusive, sejamos sinceros, até romantizariam seu comportamento e, em certo nível, invejariam seu modo “misterioso” de ver e lidar com o mundo. E assim ele seguiria, voltado às suas próprias urgências e seu mundo interno: num silêncio (e) só.

Mas não vêem, tolos, sua real face. Não sabem seu lado inseguro e medroso. Covarde que é! Se esconde no não-falar, não-ver, não-sentir. Ignoram (mais que ele próprio) o quando sofre: quieto.

Eu? Que me livrem ser silêncio! Sou barulho. Não me importo de falar demais ou algo errado. Não me importo de incomodar, comunicar ou expressar o que sinto por inteiro. E se fores, tu, silêncio te respondo na mesma moeda:

Mais um ninguém

João jazia ao chão. Da parada. De Viamão.

João que tem um filho que amou com todo o coração desde os primeiros momentos de vida.

João que foi a alegria da mãe e da família, mesmo quando abandonado pelo pai que não se acreditava pronto para assumir tal papel.

João que, quando na escola, gostava das aulas de história, mas detestava as de geografia. Talvez pela relação que estabeleceu com a professora, quem apelidou de Dona Celeusa por não conseguir pronunciar o nome que lhe foi dado sem muita possibilidade de escolha ao nascer. E a mulher gostara mais do apelido que do próprio nome, por isso não levou tempo para que ninguém mais a chamasse de Cleusa e, sim, de Celeusa.

O que Dona Celeusa a doce professora da escola pensaria agora se visse João ao chão da parada de Viamão? Será que estenderia a mão?

João que teve um melhor amigo no trabalho daquela vendinha da esquina quando era moleque. Preciso de uns trocados falou para a mãe. E se meteu a trabalhar na vendinha, na esquina e no bar. Moleque determinado o tal do João.

E os dois se metiam em cada uma. Certa vez seu tio lhe disse que ainda se dariam mal em uma dessas noitadas, ele e o melhor amigo esse. Mas João tinha a sorte de um palhaço mal sucedido, dizia o amigo. Até quando tentava se atrapalhar para ter história engraçada pra contar não conseguia. Sempre saíram ilesos.

O que diria seu amigo agora sobre a sorte de João? Será que em vez de palhaço virou piada no paradão? E estaria ele ali para levantar seu “amigoirmão”?

Aos 21 já tinha vida de adulto e trabalhava como pedreiro para uma empresa no centro da cidade. Orgulho da mãe com um emprego desses. Meu filho saiu bem sucedido! A única alegria que podia compartilhar a pobre mulher com as amigas, dada a grande dificuldade que passava no dia-a-dia. Fico triste que não tenha terminado a escola, mas é um rapaz trabalhador e honesto, já sabia que era hora de ajudar nas contas de casa.

O que faria sua mãe se assim visse João ao chão da parada de Viamão? Será que choraria em vão?

Depois de algum tempo de trabalho logo conheceu a moça. E que bela moça! Sabia logo quando a viu que seria ela. Tá, sejamos sinceros: ela primeiro gostou do seu primo. Se conheceram em um baile e ela, moça com alma de espoleta, dançara lindamente a noite inteira. João não era tão sedutor quanto o primo e, de fato, não compartilhavam muita afeição um pelo outro. No final da festa a menina, que descobriram se chamava Amélia, deu ao primo, Luís, uma prova de seus doces lábios. João ficou louco! Virou fera. Te falei que gostava dela! Mas o primo nem ligou.

Entretanto não eram destinados e João bem sabia que a menina da dança deleitosa seria sua. Dito e feito. Após algumas saídas ela se convenceu que havia escolhido o primo errado e até Ricardo concordou que João e Amélia davam mais certo.

O que sentiria Amélia, aquela moça saltitante e apaixonada por João, se visse ali, no chão, o homem que uma vez conquistara seu coração? Será que teria compaixão?

Após algum tempo juntos, Amélia engravidou. João ficou apavorado e teve o ímpeto de repetir a história do seu pai: ir embora dali. Não se via preparado. Sumiu por dois dias, não mais nem menos tempo. Até que voltou e decidiu que ficaria.

Amélia e João casaram-se às pressas e criaram o filho da melhor maneira que puderam. Mas uma vida de casado tão novos pode ser bem desgastante. Tiveram mais três filhos nesse meio tempo e todos conseguiram se virar na vida, sejamos sinceros, graças às dedicações infinitas da mãe Amélia.

Passados os anos, João sentia-se preso e não se conformava com a monotonia que sua vida havia se tornado. Não entendia porque devia tantas explicações a Amélia e aos filhos. Eventualmente se tornou ranzinza e sua vida começou a perder o sentido. Já não ria mais. Perdeu o emprego. E brigava excessivamente com a mulher. Sentia-se inferior e sem poder Mas como se era o homem da casa?

Por muitos anos assim eles foram levando. Até que os filhos crescessem e, já não aguentando mais, se mudassem para bem longe dos pais. Não ficou nenhum para contar a história. Apenas Roberto, o primogênito, que sempre foi o preferido do pai, ainda fazia algumas visitas a ele quando voltava de Santa Catarina onde administrava uma loja de bijuterias com a mulher.

Entretanto um dia, depois de tanto brigar e humilhar a mulher, João se cansou. Pegou suas coisas e partiu. Não tinha para onde ir e foi morar na rua. A mulher pediu que fosse morar com o filho mas também não aguentava mais ver a cara do velho. O desgaste das brigas e da relação fazia com que fosse quase um ato heróico conseguir se preocupar com ele. Morou com o filho por três meses. Entretanto seu vício pela bebida incomodava demais Roberto que, já farto do comportamento absurdo do pai, decidiu que ele teria que tomar uma decisão: ou parava de beber ou saia da casa. No outro dia João não estava mais lá. Voltou para as ruas de Viamão.

Será que Roberto, orgulhoso como era, se visse o pai em estado tão deplorável, deixado ao chão do paradão, abriria uma exceção? Não sei não.

Mas ali seguia João. No chão. Da parada. De Viamão.

Só, no meio de tanta gente. E TANTA gente que passava correndo cada um para pegar o seu ônibus e que nem olhava para ele ali no chão, pobre João. Eventualmente seus corpos o percebiam quando tinham que passar por cima de onde ele jazia (atrapalhava o caminho). Mas seguiam como se passassem uma pedra (que atrapalha o caminho).

Estava João no meio de tanta gente, mas ao mesmo tempo sem ninguém. E as professoras de tantos Joãos, melhores amigos de tantos Joãos, mães de tantos Joãos, mulheres de tantos Joãos, filhos de tantos Joãos seguiam passando, pegando seus ônibus e nem sequer olhavam para o chão/João.

E ele a espera de alguém qualquer que o levantasse. Todo mundo ali, mas ninguém era alguém. Bando de ninguém!

E ali ficou João. Que nem sei se era João ou Pedro. Se teve uma vida feliz. Se tinha filhos ou mulher. Se conseguiu assistência ou encontrou alguém. Porque eu, e com muito pesar admito, também não sou ninguém.

Desculpe, João.

Poetas

Poetas tem dessas

De admirar demais

Entender demais

Pensar demais

Sofrer demais

Amar demais

Viver

Demais

Talvez esse seja o grande mal do poeta

O exagero do quanto sente

E como sente

Sente tanto

Sente tudo

Sente até tentando

Não sentir

“Dramáticos”, dizem eles

E talvez até estejam certos

Talvez sejamos só

Dramáticos

Mas acho, na minha humilde perspectiva,

Que haja algo além do drama

Na trama

De escrever

Há algo de completude

E algo de vazio

A presença daquilo que falta

Na alma

De quem na verdade

Nada nunca possuiu

Há também algo de compulsório

Um vício

Notório

Factício & ilusório

Que não os deixa

Parar de escrever

Aqueles que tentam

Podem até ficar

Um, dois anos

Na abstinência

Mas logo vem

Com veemência

O ímpeto de prosear

Por isso, fique alerta

Ao primeiro sinal do poeta

Saia pela porta discreta

E trate de não voltar

Pois se decide ficar

Não há mais como escapar